OMC apoia projecto que combate resistência aos antimicrobianos em crianças

A Ordem dos Médicos de Cabo Verde (OMCV) marcou presença no lançamento do projecto PREPARA-M.CV, realizado esta semana na Universidade de Cabo Verde (Uni-CV), reafirmando o seu compromisso no combate à resistência aos antimicrobianos (RAM) — uma das maiores ameaças à saúde pública a nível global.

O Bastonário da OMCV, Francisco Barbosa Amado, destacou na ocasião que a resistência antimicrobiana deixou de ser uma preocupação restrita aos laboratórios para se tornar uma realidade presente no quotidiano clínico. “A resistência antimicrobiana manifesta-se diariamente na prática clínica, nas decisões de prescrição, no acompanhamento dos doentes e na protecção da saúde pública”, afirmou.

Para o Bastonário, a utilização racional dos antibióticos deve ser tratada como uma prioridade nacional, exigindo conhecimento científico, capacidade de monitorização, articulação institucional e o envolvimento activo da classe médica. Sublinhou ainda a necessidade de reforçar a formação dos profissionais de saúde e os sistemas de vigilância epidemiológica.

O que é o PREPARA-M.CV?

O PREPARA-M.CV é um projecto de investigação aplicada com a duração de três anos, coordenado pela Uni-CV e financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian em cerca de 180 mil euros, no âmbito do concurso “+Investigação”. Tem como foco central a população pediátrica e actua em três eixos prioritários:

Diagnóstico avançado — introdução de tecnologias de diagnóstico rápido e molecular no Hospital Universitário Dr. Agostinho Neto (HUAN), permitindo distinguir infecções virais de bacterianas e evitar prescrições desnecessárias de antibióticos;

Vigilância laboratorial — caracterização dos agentes patogénicos responsáveis por infecções bacterianas em crianças atendidas na urgência pediátrica e mapeamento dos respectivos perfis de resistência;

Capacitação e sensibilização — formação de profissionais de saúde e acções de sensibilização para a comunidade.

A Ordem dos Médicos de Cabo Verde integra a rede de parceiros institucionais do projecto, a par do HUAN, do Instituto Nacional de Saúde Pública (INSP), do Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT-NOVA), da Universidade de Leicester (Reino Unido), do Instituto de Doenças Tropicais das Canárias e do Centro Nacional de Endemias de São Tomé e Príncipe.

Um problema urgente em Cabo Verde

Em Cabo Verde, as infecções respiratórias agudas continuam a ser uma das principais causas de procura de cuidados médicos em idade pediátrica, com uma taxa de incidência de 7.551 casos por cada 10.000 crianças com menos de cinco anos. A pneumonia regista 218 casos por cada 10.000 crianças.

A directora clínica do HUAN, Hirondina Spencer, alertou que cerca de 80% das infecções respiratórias em crianças têm origem viral e não requerem tratamento com antibióticos. A ausência de ferramentas de diagnóstico rápido tem, porém, contribuído para a prescrição desnecessária destes medicamentos, acelerando a resistência.

A nível global, a Organização Mundial da Saúde (OMS) considera a RAM uma das dez maiores ameaças à saúde pública mundial. Estimativas publicadas na revista The Lancet apontam para 39 milhões de mortes directamente atribuíveis à resistência aos antibióticos entre 2025 e 2050, com particular impacto em África.