A Ordem dos Médicos Cabo-Verdianos inaugurou esta quinta-feira, 9, com chave de ouro, na sua sede, na Praia, o ciclo de conferências sociais que celebra os 20 anos da Ordem. O antropólogo Manuel Brito-Semedo, orador único da conferência, levou a assembleia numa viagem aos primórdios da medicina em Cabo Verde, nos meados de 1800, até primeira década da pós-independência, frisando o carácter humano e abnegado que era marca desses profissionais, homens e mulheres que foram imortalizado em mornas e bustos, nomes de ruas e hospitais e, acima de tudo, na memória dos cabo-verdianos.

 

A representação social do médico em Cabo Verde é a de uma pessoa “sabedora, de grande respeito, admiração e estima e, sobretudo, dotado de um grande humanismo. Daí o pregão popular: “Baxo di Deus, só Sinhor Dôtor!”. Em algumas situações, providencial até, na medida em que garante à população mais carenciada assistência médica e vacinação gratuitas e ajuda na aquisição de medicamentos”, declarou em jeito Brito-Semedo, que dedicou a conferência aos médicos cabo-verdianos Júlio José Dias (São Nicolau, 1805 – 1873) e Maria Francisca de Oliveira Sousa (Santo Antão, 1902 – 1957).

Independentemente da sua origem, em Cabo Verde sempre foram “apreciados e muito acarinhados, chegando a ser homenageados com estátuas e mausoléus, atribuição dos seus nomes a ruas, praças e hospitais e cantados em mornas”, afirmou Brito-Semedo antes de apresentar à assistência alguns médicos que exerceram medicina nas ilhas, que “deverão constituir-se exemplos para a geração actual e futura”.

Os primeiros a exercer em Cabo Verde, e de que há registo, são médicos portugueses, tanto militares expedicionários e deportados políticos como civis que trabalharam em Cabo Verde: Henrique Leopoldo Lopes Guibara; António Manuel da Costa Lereno; Francisco Augusto Regala; Manuel Ferreira Camões; José Baptista de Sousa; Ramiro Alves Figueira; Manuel Torquato Viana de Meira;

A História também fala de médicos cabo-verdianos que viveram e exerceram na época colonial: Júlio José Dias; Francisco Frederico Hopffer; João Silva Oliveira, Daniel Alves Tavares; Maria Francisca de Oliveira Sousa; João Baptista de Morais; José Duarte Fonseca; Henrique Lubrano de Santa-Rita Vieira; Aníbal Cohen Lopes da Silva; e Henrique Teixeira de Sousa.

Os cabo-verdianos continuariam a formar-se e a exercer medicina. Assim, entre os finais de 1960 até 1982 Cabo Verde teriam mais médicos, “quase que num render da guarda da velha geração, e que viriam a constituir-se em quadros fundamentais para a estruturação dos serviços de saúde do país independente”, frisou Brito-Semedo.

No dia da independência de Cabo Verde – 5 de Julho de 1975 -, soube o antropólogo, através de uma fonte, neste caso o médico João Lisboa Ramos, eram onze os médicos nacionais, colocados em diferentes ilhas, e dois estrangeiros.

Mas entre finais de 1960 e 1982 chegaram vários médicos: António José Cohen (falecido), Arsénio de Pina, Pedro do Rosário, João Lisboa Ramos, Teófilo Menezes (falecido), Francisco Fragoso, Carlos Graça (falecido), Afrânio do Rosário, Irineu Gomes (falecido), Henrique Vera-Cruz, David Rosa, Noel Medina (falecido), Luís Leite, Fernanda Rocha (falecida), Maria de Jesus Carvalho, José Pedro Morais, Alice Dupret, Carlos Vieira Ramos, Ildo Carvalho, João Medina, Dulce Dupret, Manuel Monteiro (falecido), Maria José Duarte Fonseca, Conceição Carvalho, Dario Dantas dos Reis.

A partir de 1982 chegaram os primeiros médicos bolseiros do governo de Cabo Verde. “Hoje, esses médicos estão quase todos na situação da reforma, mas ainda ativos, e têm a responsabilidade fazer a passagem de testemunho à geração mais nova”, desafiou Brito-Semedo, que fez questão também de referir os médicos cooperantes das ONGs de diferentes nacionalidades.

São eles Alessandro Loretti (italiano), leprólogo, da Asociación Italiana Amigos de Raoul Follereau; Dany Ceunick e Ana de Groot (belgas), da Oxfam-Belgique; Pitreitmaier (alemão) e o casal Drs. Kristina Buckard e marido (alemãos), Morris Makar Bashier (egípcio), cirurgião, da Egyptian Fund Cooperation, entre outros.

O conferencista recordou ainda que, logo após a independência, em Cabo Verde trabalharam médicos da União Soviética e ainda de Cuba, Argélia, França, países que também formaram e especializaram muitos médicos cabo-verdianos. Vários organismos internacionais também deram o seu contributo: a OMS, a Cruz Vermelha, a Unicef, a Handicap Internacional e a ONG sueca Rädda Barnen (Projecto de Saúde Materno-Infantil e Planeamento Familiar, PMI-PF).

Igualmente, vários países colaboraram e continuam a colaborar com Cabo Verde na melhoria da qualidade de saúde da sua população, assim como as Juntas de Saúde que têm feito um “trabalho hercúleo” nas evacuações inter-ilhas e ao exterior.

 

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Uma receita contra a “síndrome do “Alzheimer verdiano”

Provocador, como é da sua têmpera, antes de dar por encerrada a sua comunicação, Brito-Semedo “prescreveu” uma receita para a “síndrome do “Alzheimer verdiano”, que, segundo o antropólogo, “nos faz esquecer a nossa História e o nosso passado social colectivo. A medicação para esta maleita, anunciou Brito-Semedo, “deve ser tomada em doses cavalares de oito em oito horas durante cinquenta e quatro semanas, renováveis”.

Esta “medicação”, diz o professor universitário, deve consistir, para começar, na musealização dos equipamentos médicos antigos e numa recolha e exposição de equipamentos e fotos antigos. “Todos nós temos ou conhecemos alguém que possui objetos antigos como bindes, pilões, prensas, teares, máquinas de costura, candeeiros, etc., que foram preservados, mas desta parte médica, não temos notícia. É aflitivo pensar como a memória dos artefactos de Cabo Verde se esvaem e não há recolhas”, considerou o antropólogo.

Brito-Semedo ainda propôs a elaboração da História da Medicina em Cabo Verde, lembrando que já existe uma publicação – “A História da Medicina em Cabo Verde”, do falecido médico Santa-Rita Vieira (1.ª edição, ICL, 1989; 2.ª edição, Ministério da Saúde de Cabo Verde, 1999) -, que é “em todos os sentidos, um trabalho meritório, que abrange todo o período da história de Cabo Verde e vai até à independência nacional”, mas está esgotado.

Para além disso, referiu o professor universitário, “é preciso continuar o que já foi feito e acrescentar outros capítulos à História da Medicina em Cabo Verde, nomeadamente o período de 1975 a 2010”. “Essa é uma recolha de dados que se impõe e tem de ser feita antes que o Tempo leve esses dados para sempre”, desafiou Brito-Semedo, para quem essa História da Medicina em Cabo Verde - Parte II “poderá começar por ser um conjunto de Subsídios para a História da Medicina”, devendo ser escrita “numa perspetiva abrangente de modo a incluir a História da Farmácia e a História da Enfermagem, componentes importantes que não podem ser deixados de lado”.

Algum trabalho vem sendo feito e é já um contributo valioso para a escrita dessa história, reconheceu Brito-Semedo. Em 2009 o Dr. António Pedro Delgado publicou em livro a sua dissertação de Mestrado em Saúde Pública - Área de Planeamento em Saúde, Políticas de Saúde em Cabo Verde na década de 1980-1990: Experiência de Construção de um Sistema Nacional de Saúde e, em 2012, o Doutor Ireneu Gomes, antigo Ministro da Saúde, publicou o livro A Psicopatologia da Miséria.

Na área da enfermagem existem, igualmente, alguns trabalhos publicados. Em 2010 a enfermeira Germana Gomes editou A história da enfermagem em Cabo Verde – 1950/2009 e, em 2015, a enfermeira Alice Martins a sua dissertação de Mestrado em Enfermagem, na Especialidade de Serviços de Gestão e Enfermagem, História da Enfermagem em Cabo Verde: Contributos do Passado para a Construção do Futuro.

Às publicações em livro deveria se juntar, propôs por fim Brito Semedo, a emissão de uma série de selos postais – “Médicos Ilustres em Cabo Verde” -, num reconhecimento nacional que teria “repercussão além-fronteira”, acredita o antropólogo.